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Caminhadas espaciais
A missão STS-116 continua a todo vapor. Bob (Curbeam) and Suni realizaram o terceiro EVA (Extra-Vehicular Activity ou atividade extraveicular em português), quando modificaram as conexões do sistema elétrico da ISS para adaptar os novos elementos acoplados à estação e já deixar tudo pronto para os seguintes.
Durante o EVA eles também reposicionaram painéis de proteção contra impactos de lixo espacial e micrometeoros. Depois, instalaram uma fixação robótica, que é um ponto onde o braço robótico canadense pode conectar uma das suas extremidades para trabalhar a partir dali ou para “caminhar” como uma lagarta sobre a superfície da espaçonave.
O ponto de fixação fornece conexão física, elétrica e de dados para o braço operar. Bob também realizou testes e tentou, no tempo que sobrou de oxigênio e eletricidade dos trajes, no final do EVA, recolher o painel solar P6 que falhou nesse movimento.
Ele observou que o problema foi causado, possivelmente, por um desalinhamento dos fios usados como guias para a retração. Mesmo sacudindo o sistema, Bob não conseguiu liberar o movimento. Na segunda feira (18), haverá outro EVA para resolver o problema.
Atividades extra-veiculares (EVA) são partes importantes e difíceis da missão. O treinamento para executar essas atividades é longo e penoso. Ele começa com uma visita à USA (United Space Aliance), onde o nosso traje espacial é individualmente medido e ajustado.
Depois temos cerca de um mês de aulas teóricas sobre o traje EMU (Extra-Vehicular Mobility Unity), a famosa roupa espacial de astronauta, que é, na realidade, uma espaçonave completa para um só tripulante. Ela pesa 130 kg e custa algo em torno de US$ 20 milhões.
Uma vez que conhecemos todos os sistemas da roupa e sabemos operá-los em situação normal e de emergência, passamos para a fase virtual, onde conhecemos todo o exterior da ISS utilizando programas de realidade virtual.
Nessa fase, também treinamos como retornar à estrutura da ISS, no caso de desconexão acidental dos cabos de segurança. Isso é feito utilizando o sistema de emergência de propulsão da roupa, movido a nitrogênio.
Na próxima fase, fazemos uma série de mergulhos na enorme piscina do NBL (Neutral buoyancy laboratory), usando apenas equipamento normal de mergulho. Isso serve para conhecermos detalhes e particularidades dos modelos em escala real da ISS que ficam dentro da piscina de treinamento. Nessas idas ao NBL, também temos aulas e provas de todas as ferramentas que iremos utilizar nos treinamentos e no espaço.
Na piscina, com o traje EVA, fazemos inicialmente três missões básicas de teste. Aqueles que foram aprovados para continuar o treinamento avançado fazem mais dez missões de treinamento até se qualificarem para a atividade. Depois, quando escalados para a missão no espaço, temos mais um número considerável de mergulhos EVA de treinamento, dependente da complexidade da tarefa designada, pensados especificamente para preparar os detalhes necessários daquele vôo.
Sou qualificado para realizar EVA com o traje MEU (americano), mas não com os trajes ORLAN (russos). Não deu tempo de treinar essa parte nos seis meses que tive disponíveis na Rússia antes do meu primeiro vôo. Quem sabe no segundo. Continuo aqui em Houston a disposição e aguardando o Programa Espacial Brasileiro para outras missões. Eu gostaria de fazer uma “caminhada espacial”.
Lembro-me bem dessas missões de treinamento EVA. Preparar-se para cada uma delas exige grande número de horas de estudo, computador (virtual) e mergulho. No final, depois de seis horas de mergulho com o traje EVA, estamos esgotados e cheios de hematomas. Algumas vezes perde-se uma unha, virando ao contrário e descolando, por atrito no interior das luvas, se a unha não estiver bem cortada. Só sentimos a dor para valer depois que tiramos a roupa.
Cada missão começa com exame médico às 7h, seguido de preparação de roupa e ferramentas até as 8h30. Às 9h, o guindaste nos coloca na água. Durante o treinamento, submersos, ficamos em contato com o chefe de equipe na sala de controle através de cabos de comunicação.
Mergulhadores de apoio e segurança nos acompanham o tempo todo. No meio da tarde, mais ou menos 6 horas de treinamento, somos resgatados por guindaste, tiramos o traje, temos a sessão de críticas e análise e vamos descansar. Normalmente dormimos até o outro dia de manhã. O cansaço físico é extremo... mas essa é a nossa vida.
A Suni, que está no espaço neste momento, é uma das melhores da nossa turma em EVA. Eu tenho grande orgulho de vê-la brilhando na missão!