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Blog do Astronauta

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    Lendas urbanas sobre um astronauta

    Uau! Estou surpreso com a quantidade de comentários na minha primeira mensagem. Legal ver a participação, fico feliz. Vi que muitos deles são críticas, e acho que, agora que temos este canal de comunicação aberto, talvez seja uma boa hora mesmo para responder às dúvidas que as pessoas possam ter.

    Para começar, eu notei que muita gente tem a impressão de que eu sirvo, ou posso ter servido, como um garoto-propaganda do presidente Lula. Gente, eu tenho que dizer isso: não sou uma "invenção" do presidente Lula! Na verdade, quando fui escalado para ir à Nasa e começar meu treinamento de astronauta, o presidente era Fernando Henrique Cardoso. Isso foi em 1997. Fiquei treinando por todo esse tempo, e o vôo acabou acontecendo durante o governo Lula. E é assim que tem que ser, com um governo dando continuidade às ações do outro para que os projetos de longo prazo, como o desenvolvimento de um programa espacial, possam frutificar.

    O problema foi que a proximidade com o vôo me tornou muito mais conhecido, e aí as pessoas começaram a achar que o Lula tinha me "inventado" só para fazer propaganda. Eu entendo a polarização que acontece às vésperas de uma eleição presidencial e sei que muitas das críticas que vieram na minha direção na verdade têm por alvo outras pessoas. Então eu peço: não gostaria de ser envolvido nesse debate. Não estou a serviço de nenhum candidato ou partido, e gostaria de dizer que nutro um profundo respeito tanto pelo presidente Fernando Henrique Cardoso como pelo presidente Lula. Primeiro porque imagino o quanto é difícil decidir os destinos de uma nação inteira. Segundo porque os dois tiveram ações importantes no programa espacial brasileiro. Ainda há muita coisa a ser feita? Claro que sim, é preciso muito mais, e é por isso que estamos aqui. Mas melhores aqueles que fizeram um pouco do que os que preferiram não fazer nada porque não teriam como fazer tudo.

    Para encerrar esse assunto de política e eleição, minha única opinião formada é a de que todo mundo tem de pensar muito bem antes de escolher. Afinal, são os próximos quatro anos do Brasil que estaremos decidindo.

    Agora, vamos falar de outras "lendas" que se formaram a meu respeito depois que retornei do espaço.

    - A lenda de que eu abandonei a Aeronáutica.

    Em primeiro lugar, as pessoas acham que eu passei seis meses lá, fui para o espaço, e depois abandonei a Força Aérea. Nada podia estar mais longe da verdade. Passei mais de 20 anos da minha vida como oficial da FAB, arriscando minha vida como piloto de caça. Tenho grande carinho pela corporação, que foi quem me "criou" para que eu fosse honrado com a oportunidade de me tornar o primeiro brasileiro no espaço. A decisão de ir para a reserva após o vôo espacial ocorreu em mútuo acordo com a Aeronáutica, por duas razões. Do meu lado, porque, durante os oito anos em que passei na Nasa treinando para minha missão, perdi uma série de cursos obrigatórios para oficiais de carreira. Não podia mais ser promovido e fiquei sem perspectivas de avanço dentro da corporação. Do lado da FAB porque a minha atuação em prol do programa espacial poderia ser muito mais efetiva se eu estivesse desligado da Aeronáutica, permitindo maior movimentação no setor privado -- que é quem tem que atuar mais no programa espacial brasileiro, se o objetivo é torná-lo um instrumento de desenvolvimento tecnológico e social, com incrementos na economia e geração de empregos. Vale lembrar que minha ida para a reserva de nenhum modo significou um abandono do programa. Aliás, despachei, meses atrás, de Houston, cartas ao Centro Técnico Aeroespacial e à Agência Espacial Brasileira oferecendo meus serviços, sem custos para o governo, na continuidade do programa.

    - A lenda da plantação de feijões.

    Os experimentos brasileiros que fiz no espaço (oito no total) são muito mais complexos que o do feijão, que tinha finalidade educacional, não científica -- eu cultivava o feijão no espaço enquanto crianças do Brasil faziam o experimento em terra, para comparar. Eu pessoalmente gostei, mas houve muito mais que isso na minha missão, e oportunamente darei aqui mais detalhes dos resultados, que ainda estão sendo analisados pelos cientistas.

    - A lenda de que eu sou turista espacial.

    Quando os americanos voam para a Estação Espacial Internacional numa nave russa, também têm de pagar ao governo russo. Aliás, pagam uma taxa muito maior do que a que o governo brasileiro pagou. Nem por isso, são tidos como turistas espaciais. Eles são astronautas de carreira, treinados pela Nasa para servir o país deles, assim como eu fui treinado para servir o meu. Fui ao espaço a serviço do Brasil, não por interesses próprios (e nem com meios próprios), e por isso sou astronauta, não turista. E essa idéia de que eu ganhei dinheiro com isso é falsa. O dinheiro foi todo repassado à agência espacial russa.

    - A lenda de que eu larguei tudo para ganhar dinheiro com palestras.

    Continuo, como sempre fiz, dando palestras gratuitamente em instituições públicas e sem fins lucrativos -- tudo que elas precisam fazer é arcar com os custos de transporte e estadia, pois não disponho de dinheiro para viajar por todos os cantos do Brasil. Mas o importante é que eu continuo com meus esforços de estimular a juventude a seguir carreiras na área de ciência e tecnologia, um dos grandes benefícios gerados pelo meu vôo espacial -- a capacidade de mostrar aos jovens do Brasil que vale a pena estudar e vale a pena perseguir sonhos. E os resultados disso nós só veremos em dez, vinte anos, mas estou certo de que virão.

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Marcos Cesar Pontes

Marcos Pontes é o primeiro astronauta brasileiro. Após oito anos em treinamento com a Nasa (agência espacial americana), ele tripulou a Missão Centenário, criada pela Agência Espacial Brasileira para a execução de experimentos nacionais (cientificos e educacionais) a bordo da Estação Espacial Internacional, em março de 2006. Atualmente, ele continua à disposição do programa espacial brasileiro, participando de vários projetos espaciais no Brasil e no Centro Espacial Johnson da Nasa, em Houston, Texas.






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